quinta-feira, 29 de abril de 2010

Eu sempre estive entre aspas. Ficar triste é um sentimento tão legitimo quanto a alegria. Reclamar do tédio é fácil, difícil é levantar da cadeira pra fazer alguma coisa que nunca foi feita. Queria não me sentir tão responsável pelo que acontece em meu redor. Felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas. Pessoas com vidas interessantes, interessam-se por gente que é o oposto delas. Emoção nenhuma é banal se for autêntica. Dar certo não está relacionado ao ponto de chegada, mas ao durante. O prazer está na invenção da própria alegria, porque é do erro que surgem novas soluções, os desacertos nos movimentam, nos humanizam, nos aproximam dos outros. Enquanto o sujeito nota 10, nem consegue olhar pro lado, sobe pena de ver seu mundo cair. O mundo já caiu, baby, só nos resta dançar sobre os destroços. Nosso maior inimigo é a falta de humor.

.Martha Medeiros


E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

.Manoel de Barros

segunda-feira, 26 de abril de 2010

(…) Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

.Martha Medeiros in Doidas e Santas


Sou construída por emoções secretas.
Podem até comentar sobre mim,
mas me capturar…
Só com minha permissão!


Martha Medeiros

Você não vê nada além



Sou feita de silêncios. Não é todo mundo que consegue compreendê-los. Sou feita pra quem sabe ver. Pra quem sabe sentir. Pra quem consegue me decifrar. Não é qualquer um que me entende.

"Somos passaro novo, longe do ninho"


Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros,
e os erros são seus

Não quero lembrar que eu erro também
Um dia pretendo tentar descobrir

Porque é mais forte quem sabe mentir

Não quero lembrar que eu minto também
Eu sei
Feche a porta do seu quarto

Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar Por horas e horas e horas
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e histórias

Somos passaro novo, longe do ninho

Eu sei.


Legião Urbana

domingo, 25 de abril de 2010

No momento não tenho mesmo nada. Só coisas escuras. Prefiro guardar comigo.


Preciso tanto de alguém pra despejar todas essas loucuras, para enlouquecer junto comigo. Ando tão farta de todos esses sentimentos mal-resolvidos, mal-terminados, e até mesmo: mal-vividos; que já não sei que rosto tem a minha saudade.

Caio Fernando Abreu

Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas. Às vezes também me dá uma bruta raiva delas, de sua tristeza, sua mesquinhez. Depois penso que não tenho o direito de julgar ninguém, que cada um pode — e deve — ser o que é, ninguém tem nada com isso. Em seguida, minha outra parte sussurra em meus ouvidos que aí, justamente aí, está o grande mal das pessoas: o fato de serem como são e ninguém poder fazer nada. Só elas poderiam fazer alguma coisa por si próprias, mas não fazem porque não se vêem, não sabem como são. Ou, se sabem, fecham os olhos e continuam fingindo, a vida inteira fingindo que não sabem.

Caio Fernando Abreu in Limite Branco

"Há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo."


Para vocês mulheres que desacreditaram dos homens, nem venham dizer que príncipes encantados não existem, pois eles existem, eles só não vem mais com uma roupa de galã branca em um cavalo branco, os príncipes encantados, são aqueles caras que dormem e acordam pensando em vocês, pensando em uma forma de fazer vocês felizes por mais um dia, pensando em arrancar um simples sorriso, algumas infelizmente não tem o príncipe encantado porque ao invés de escolhê-lo, escolheram ao bobo da corte por ser mais bonitinho e engraçado.

Tati B

sábado, 24 de abril de 2010

O jardim era tão bonito que ela teve medo do inferno.



Ao mesmo tempo que imaginário - era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

- As árvores estavam carregadas. O mundo era tão rico que apobrecia.

"Não olhava pra ninguém, ninguém olhava pra ela"


Porque dá-las, então? Lindas e dá-las? Pois quando você descobre uma coisa boa, então você vai e dá? Pois se eram suas, insinuava-se ela persuasiva sem encontrar outro argumento além do mesmo que, repetido, lhe pacrecia cada vez mais conveniente e simples. Não iam durar muito por que então dá-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las não significava grande risco. Enganou-se ela - pois, quisesse ou não quisesse, em breve seria forçada a se privar delas, e nunca mais então pensaria nelas, pois elas teriam morrido - elas não iam durar muito, porque então dá-las? O fato de não durarem muito parecia tirar-lhe a culpa de ficar com elas, numa obscura lógica de mulher que peca.

E também porque uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter. E, sobretudo, nunca para se "ser". Sobretudo nunca se deveria ser a coisa bonita. A uma coisa bonita se faltava o gesto de dar. Nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim como que guardada dentro do silêncio perfeito do coração.

Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco pertubada. Oh, Nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava.

Laços de Família

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O que é bonito


É o que persegue o infinito mas eu não sou,
eu não sou não não
Eu gosto é do inacabado, o imperfeito, o estragado que dançou,
o que dançou

Eu quero mais erosão menos granito
Namorar o zero e o não e escrever tudo o que desprezo e desprezar tudo que acredito
Eu não quero gravação nao eu quero o grito

Que a gente vai, a gente vai e fica a obra mas eu persigo o que falta
não o que sobra
Eu quero tudo que dá e passa, quero tudo que se despe, se despede e despedaça

Lenine

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"O mundo é um moinho. Não de vento, mas de sopro. O que Cartola chama de sonho mesquinho, as crianças… de catavento." Rita Apoena


Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério. É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.

Cora Coralina

"Comovo-me com excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões." Graciliano Ramos


"Alguns sentem vida, sentem beleza,
sentem amor, com doses de conta-gotas.
Eu, não: é uma chuvarada dentro de mim."

Ana Jácomo

terça-feira, 20 de abril de 2010

Antigo filme, bom verso

ASSISTINDO AO ÓTIMO "CLOSER - Perto demais", me veio à lembrança um poema chamado "Salvação", de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: "Nenhuma pessoa é lugar de repouso". Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se davam por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída - o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.


Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade - nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos da sala com um gosto amargo na boca.


Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o rodízio e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo "leve dois, pague um", também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.


Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?


Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.


Martha Medeiros

"saudosa do que faço"




"Outras vezes ouço passar o vento, E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."

Fernando Pessoa

“As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostram...”

Caio Fernando Abreu

Não há certo que cure o errado.


O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo tem ultrasentido.

Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu intramistério.

Leminski
(Foto: Henri Cartier-Bresson)
"Não adianta vir arreganhando os dentes para mim
Porque sei que isso não é um sorriso".

Itamar Assumpção

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Eu que não vou parar.


"Alguém parado
é sempre suspeito
de trazer como eu trago
um susto preso no peito,
um prazo,
um prazer,
um estrago,
um de qualquer jeito,
sujeito a ser tragado
pelo primeiro que passar
parar dá azar."

Leminski




(Foto: Robert Doisneau)